O Jardim no Vácuo — Registro I: O Lugar Antes do Primeiro Mapa

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Ninguém acreditou quando a nave desviou da rota sozinha.
 O painel não acusava falha, o piloto não tocara em nada, e ainda assim o espaço — vasto e obediente — pareceu abrir caminho como quem reconhece um velho amigo.

Eu era apenas o cartógrafo da missão. Minha função era registrar o que já existia. Mas naquela noite, diante de um ponto de luz que não constava em mapa algum, entendi que o universo também inventa.

A nave desacelerou próximo a um pequeno planeta translúcido, como se fosse feito de vidro e sonho. Não havia órbita estável, nem estrela-mãe. Ainda assim, ele florescia no vazio.

Ao pousarmos, não encontramos rochas nem cidades. Havia um jardim.

Plantas que flutuavam suavemente, raízes soltas no ar. Flores que se abriam ao som da respiração. Cada passo fazia surgir lembranças que eu julgava esquecidas: a casa da infância, um rosto que amei e perdi, o cheiro de terra molhada após a chuva.

Os sensores não captavam nada disso. Mas eu sentia.

No centro do jardim, uma árvore brilhava como constelação viva. Ao tocá-la, ouvi uma voz — não em palavras, mas em sentido:

“Toda viagem é retorno.”

Entendi, então, que aquele planeta não existia para ser descoberto. Existia para ser lembrado.

Quando partimos, o jardim desapareceu sem deixar vestígios. No relatório oficial, registrei apenas silêncio e coordenadas vazias.

Mas, desde então, sempre que olho para o céu, sei:
 há lugares que não se alcançam com motores,
 apenas com saudade.

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