No dia seguinte ao desvio, a tripulação voltou a chamar o ocorrido de “anomalia”.
A palavra era confortável. Anomalias não exigem respostas, apenas relatórios.
Eu, porém, sabia. O espaço não se dobra sem intenção.
A fragata mantinha órbita ao redor daquele ponto de luz que insistia em não ser estrela nem planeta. Era como se algo estivesse ali apenas o suficiente para ser notado — e não o bastante para ser compreendido. Meus instrumentos falhavam com delicadeza, como quem se recusa a ser indelicado diante do mistério.
Registrei coordenadas que não fechavam, ângulos que se recusavam a obedecer à geometria conhecida. A cartografia, percebi, não era apenas o ato de mapear o que existe, mas de admitir a existência do que não cabe nos mapas.
Quando a nave aproximou-se mais, notei o primeiro sinal de vida — não biológica, ao menos não como aprendemos a definir. Havia padrões. Ritmos. Uma espécie de respiração lenta no vazio. O espaço ali pulsava.Ordenei silêncio total nos sistemas de comunicação.
Algumas descobertas não suportam testemunhas barulhentas.
Foi então que vi o jardim.
Não um jardim de plantas, mas de trajetórias. Fragmentos de poeira cósmica orbitavam em harmonia impossível, como se alguém tivesse semeado movimentos em vez de sementes. Cada partícula parecia saber exatamente onde estar, e por quanto tempo.
Ali, compreendi algo que nenhum manual da frota menciona:
há civilizações que não constroem cidades — cultivam o tempo.
Se existem observadores, ainda não se revelaram. Talvez sejamos nós os observados. Talvez o cartógrafo seja apenas mais um símbolo curioso em seu vasto herbário cósmico.

Encerrando este registro, deixo uma nota pessoal — não oficial:
se o universo é infinito, então o desconhecido não é exceção.
É regra.
E eu sigo adiante, não para conquistá-lo,
mas para aprender a nomeá-lo sem feri-lo.

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